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Salta & Jujuy: Poesia Andina

22/03/2018
O tempo passa devagar em Jujuy em uma combinação de cenários campestres e inspirações artísticas. Foto Caio Vilela
Em Salta, as paisagens alinham estradas cênicas, vinícolas, atmosfera pacata e belezas naturais. Foto Caio Vilela

O que turistas franceses, motociclistas brasileiros e celebridades hollywoodianas têm em comum? Todos descobriram – antes da indústria do turismo – as paisagens dramáticas, os vinhos de altitude, e a riqueza cultural do Noroeste da Argentina.

Texto e imagens por Caio Vilela*. Especial para a The Traveller

 

“Indescritível. Não há adjetivo, fotografia ou cinema Imax que consiga reproduzir a grandiosidade desse lugar. Uma experiência no mais puro estilo Lucy in the Sky with Diamonds, porém sem aditivos químicos.” O comentário do viajado pintor francês ao saber de meu destino me enchia de expectativas. Durante o papo no voo de Buenos Aires para Salta, escutei lendas e histórias reais daquele lugar sagrado para os indígenas. Com tantos destinos na Argentina, a região Noroeste não habita a lista de prioridades da maioria dos brasileiros em visita ao país. Mas não é por falta de potencial: juntas, as províncias de Salta e Jujuy somam uma variedade enorme de paisagens andinas, produzem surpreendente qualidade de vinho e oferecem uma coleção de hospedagens rurais charmosas. Talvez por serem destinos pouco conhecidos,
superseguros, com povo hospitaleiro e uma surpreendente gastronomia típica, vilarejos como Cachi e Cafayate, na província de Salta, e a colorida Quebrada de Humahuaca, vale na província de Jujuy, ainda sirvam como refúgio de celebridades viajando no anonimato.

Richard Gere foi visto – e jamais importunado – pilotando uma moto em Cachi. Brad Pitt visitou a região despercebido e Matt Damon, casado com uma saltenha, aparece ocasionalmente. Estradas cênicas e seguras em ambas províncias revelam-se perfeitas para se explorar a bordo de um veículo próprio (alugado, para quem gosta de dirigir, ou com motorista). 

Pelo caminho, formações rochosas coloridas, vales pontuados com gigantes cactos cardones, cachoeiras de água potável e desertos de sal fazem parte do legado de patrimônios naturais protegidos pela Unesco desde 2001. Tal poesia geográfica está aqui do lado, na mesma linha de latitude da cidade de São Paulo. Divide o mesmo clima tropical, com temperaturas agradáveis o ano todo e, segundo meu interlocutor, é um destino perfeito para escritores e artistas em busca de inspiração. “Para se dar ao luxo de ficar offline, apreciar o silêncio, caminhar, cavalgar, pedalar, ou simplesmente relaxar à sombra.”


Salta. Pacata e charmosa
Após viajar 160 quilômetros, chego a Cachi, um vilarejo tirado de um filme de pistoleiros mexicanos. No centro, um moderno museu arqueológico conta a história dos povos pré-incaicos diaguita e calchaquíe, cujos vestígios ainda se encontram sobre o solo dos sítios arqueológicos espalhados pela região. Na plaza principal, me junto a um movimento tímido de turistas, principalmente franceses, italianos, e ocasionais casais motociclistas brasileiros a caminho do deserto de Atacama. Restaurantes locais servem as famosas empanadas saltenhas, tamales e humitas, espécie de pamonha salgada com recheio de carne, e vendedores de artesanato ocupam as calçadas sombreadas. Uma estrada sinuosa entre formações rochosas bizarras conduz até Cafayate, região produtora de vinhos, em três horas e meia de viagem. Ao longo do trajeto, paradas para conferir as formações rochosas de El Anfiteatro e Quebrada de las Flechas rendem algumas das fotos mais impressionantes da viagem. A chegada a Cafayate contrasta com a aridez do deserto. Sorveterias oferecem helado de Malbec ou de Torrontés, a uva verde típica da região. Me aproximo de Pachamama, a mãe-natureza andina, durante uma caminhada de quatro horas pelo no sendero das Siete Cascadas, onde a trilha acompanha o curso de um rio de águas límpidas, pontuada com cachoeiras e poços generosos.


Jujuy. Pitoresca e selvagem
Distante apenas uma hora e meia de Salta – por uma ótima estrada – está San Salvador de Jujuy, capital de Jujuy, porta de entrada para a cinematográfica Quebrada de Humahuaca. Adentramos o grande vale dirigindo sob o sopé de enormes montanhas poeticamente chamadas de Paleta del Pintor, graças à profusão de cores quentes em seus contrafortes. O festival de cores da bizarra geologia atinge oapogeu na chegada a Purmamarca. Atrás do pequeno pueblo, o famoso Cerro de Siete Colores marca o início do Paseo de los Colorados, uma estrada vicinal cercada de rochas avermelhadas, possível de se percorrer a pé, de bicicleta, a cavalo ou de carro. A paisagem muda drasticamente conforme subimos o ziguezague asfaltado rumo ao deserto de sal de Salinas Grandes. O enorme assoalho branco a 3.500 metros de altitude, no caminho para a divisa com o Chile, evidencia o lado inóspito e remoto de Jujuy, e representa o ponto final do percurso do dia. Mais ao norte chegamos a Tilcara, outro pueblito simpático, conhecido por abrigar uma pequena colônia de famílias francesas, como a do artista Rémy Rasse, original do sul dos Alpes, proprietário de um dos hotéis da cidade. Tilcara esconde suas belezas naturais nas terras altas, onde planejo me hospedar afastado do meio urbano. A partir do centro, uma estreita estrada de terra sobe além dos 3.000 metros de altitude, e dá acesso a um cânion, onde uma caminhada de 30 minutos leva até uma cachoeira de água potável. Cinco quilômetros acima, chego à Casa Colorada, um pequeno e sofisticado hotel nas alturas. Ainda em Tilcara, uma visita ao vinicultor Claudio Zucchino permite a degustação do vinho mais alto do mundo, produzido em parreiras de Malbec e Cabernet Sauvignon cultivadas a quase 3.000 metros de altitude, e distribuído apenas localmente. O vinho encorpado proporciona, como todas experiências pela região, um sabor único à viagem. Após dez dias, parto do Noroeste da Argentina com a sensação de ter conhecido apenas a ponta do iceberg. Deixo para trás inúmeros pueblos e atrações ainda pouco exploradas pelos turistas convencionais, com a esperança que os leitores com espírito aventureiro apareçam para dar um passo além e nos contem suas descobertas.

 

Onde ficar

House of Jasmines
Salta
A 15 quilômetros da cidade de Salta, a ex-casa de campo do ator Robert Duvall, que viveu aqui com sua esposa por dez anos, foi transformada em um pequeno e exclusivo
hotel Relais & Châteaux.

La Merced del Alto
Cachi
Oásis de sossego distante cinco quilômetros do centro, na porção alta do vale. Uma casa branca com varandas e cercada de diversos tipos de cactos.

Grace Cafayate
Cafayate
A três quilômetros da cidade, o hotel está perfeitamente integrado às paisagens ao redor, e conta com clube de golfe, vinícola própria, restaurante e bar de vinhos e charutos.

 

* Caio Vilela é fotógrafo e jornalista paulistano. Produz reportagens em revistas e jornais nacionais e estrangeiros desde 1994, tendo sido publicado em mais de cem países.

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